AS PALAVRAS
VOAM
Todos trabalhavam com o mesmo
objetivo. Aprontar o navio. Nessa próxima viagem os helicópteros da Marinha
seriam transportados para realizar uma remodelagem completa na fábrica na
Itália. Era sem dúvida motivante, mas a longa espera do sinal verde para o
navio suspender provocava uma certa ansiedade na guarnição. Entretanto ninguém
esmorecia! Eu era o Imediato do navio e mantinha um controle rigoroso de tudo
que seria necessário para viagem. Uma tarefa difícil!
Todo o pessoal do navio sabia que
o Capitão de Fragata Fonseca, amigo do Comandante, servindo no Gabinete do
Ministro, anteciparia a data da viagem para ele, tão logo fosse decidida.
Um dia, estava eu em meu
camarote, ao lado da Câmara do Comandante, quando fui chamado para falar com
ele. Ao entrar, fui recebido com as seguintes palavras:
-
Imediato, não comente com ninguém, segredo
absoluto, o Fonseca me ligou neste minuto e o navio deve suspender daqui a duas
semanas para viagem, temos pouco tempo. Manda chamar os Chefes de Departamento
para uma reunião.
Sai de lá e falei com um
marinheiro para avisar os Chefes de Departamento que haveria uma reunião na
Câmara daqui a quinze minutos. Em seguida, regressei ao camarote para buscar as
pastas de controle e voltei ao Comandante, a fim de alinhar com ele as ordens
antes da reunião.
Logo, chegam os oficiais e o
Chefe de Máquinas que, do nada, joga no ar a seguinte frase:
-
Comandante, que legal, o Comandante Fonseca
finalmente confirmou que a viagem foi autorizada!
O Comandante deu uma rápida e
penetrante olhada em minha direção.
Os trabalhos da reunião foram
iniciados. O meu pensamento subiu às alturas, com a situação embaraçosa criada
pelo Chemaq.
Alguns segundos se passaram até
que pedi para interromper a reunião.
-
Comandante, desculpe interromper, mas preciso
mencionar um assunto de grande importância.
Expliquei o meu espanto a todos
os presentes e perguntei ao Chemaq: “como você soube desta notícia?”.
-
Eu soube pelo Sargento Martins no corredor da
Praça D’Armas, ele passou por mim e disse “Chefe, a viagem saiu! O Comandante
já recebeu a notícia”.
Intrigado, pedi para chamar o
Sargento Martins.
-
Soube pelo Cabo Soares, lá na proa do navio,
quando fui conversar com o Mestre – respondeu o sargento meio desconcertado.
Na sequência, o cabo foi chamado.
“O marinheiro Maicon me falou no refeitório, disse ele”.
Maicon explicou: - Inácio, o
Ordenança do Comandante, me contou, perto da popa.
A Câmara já estava lotada de
gente – Imaginei cá comigo: como em um navio tão grande e em minutos, o assunto
se espalha!
Nessa última descoberta, o
próprio Comandante se precipitou e mandou chamar o Inácio.
O Inácio então: - O dispenseiro
me disse que o Comandante Fonseca telefonou e falou que a viagem saiu.
Foi a vez do marinheiro Paulo,
dispenseiro do Comandante, se explicar.
“Eu estava arrumando a Câmara, quando o
Cabo-Auxiliar de serviço bateu na porta e falou:
- O Comandante Fonseca quer falar
com o senhor, Comandante. Já transferimos a ligação para o seu aparelho.
O dispenseiro, que estava
arrumando a Câmara, tinha ordens para sair, quando o Comandante recebesse
qualquer ligação.
Sem intenção, ao sair, ainda deu
tempo para ele escutar o Comandante dizer:
- Ó Fonseca, quer dizer que
finalmente saiu a viagem!