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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

INVEJA

O Bar

 

Saiu da estação do metrô já meio cansado. Não esperava que estivesse chovendo tanto. Olhou em volta à procura de abrigo. Viu uma marquise e correu para lá. As pessoas passavam impacientes, realçando o dia escuro que não lhe fornecia forças para seguir adiante. Sentiu-se fracassado.

Sem emprego, chegaria mais tarde em um conjugado na avenida Nossa Senhora de Copacabana, com o aluguel vencendo, e sozinho arcaria com a amargura de mais um dia em vão. O boteco ao lado mostrou-se convidativo e se viu, num instante, pedindo uma cerveja para clarear as ideias. O pensamento voa num resumo da vida. Encostado no balcão, ainda sem o efeito do álcool, lembrou-se da filha, que a esta altura devia estar saindo da aula. Maria Luiza, sua ex-esposa, era uma batalhadora e com certeza já estava a esperando no colégio e fazendo à professora incessantemente milhares de perguntas, sobre o comportamento de Andreia na sala, como seria o dever de casa, essas coisas.

Ele mesmo não tinha ânimo. Agora com a segunda rodada, olhou a chuva aumentando, a confusão das pessoas na rua e os carros espalhando água para todos os lados. Isto lhe fornecia motivo para pensar mais.....

Sortudo mesmo era o Armando! Tinha a Claudia que o adorava, dois garotos estudiosos, os dois quase com a idade da Andreia, e um bom emprego na Petrobrás. Sem falar da maravilha do apartamento no Leblon. Não entendia isso de jeito nenhum. Haviam estudado juntos para o concurso. E ele que tinha apresentado Claudia ao Armando. Como pode? O destino é mesmo assim, ingrato e cruel. Hoje, eles não lhe dão bola.

Atormentado com esses pensamentos, Luiz repassava suas brigas homéricas com Maria Luiza por causa da bebida e da sua falta de persistência e vontade para enfrentar as situações da vida, segundo ela, é claro. Nesse tempo de casado, rolou muito de emprego em emprego, implicando com as coisas mais simples, sempre em relação aos danados dos chefes.

De dentro do bar, olhou os estragos do dilúvio e pensou novamente: Sortudo mesmo era o Armando!

Pediu mais uma cerveja.  


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