IRA
Da rua dava para ouvir os berros vindo do
fundo da garagem subterrânea do prédio. A raiva de Jorge por não conseguir sair
com com carro da vaga se traduzia naqueles gritos que chegavam até o porteiro
noturno. Este no mesmo instante interfonou para o morador do 303. Já estava
amargamente arrependido em concordar deixá-lo largar o seu SUV em qualquer
lugar, pois havia chegado muito tarde. E que azar, logo na frente daquela vaga!
Demorou um certo tempo para que um jovem
alto, sonolento e musculoso viesse atender as reclamações do possesso
‘madrugador’, vestido espalhafatosamente para ir à praia. O banhista, dada à
circunstância de inferioridade, teve de admitir aquilo calado, engolindo o ódio
gerado pela situação.
Ao sair da garagem, Jorge verificou que o
dia estava perfeito. A temperatura agradável e o sol.... Este sim fazia
diferença em toda a confusão, pois batia nas árvores e prédios em um ângulo
quase mágico, produzindo uma sensação ótima. Apesar de ainda agitado, ligou o
rádio e ficou pensando que salvo as constantes queixas de saúde da mãe, que o
desassossegavam, a vida dele ia bem naquele momento, sem grandes preocupações. Mesmo
no trabalho, esquecendo aquele cliente impertinente chateando o tempo todo, as
coisas caminhavam para melhor.
Agora, a praia o esperava e junto à ela.....
Jurema, que já devia estar a caminho para lá.
Ah! O mar.... as suas cores que variam ao
longo do dia, o barulhinho das ondas e o aroma do salitre fazem esvanecer os pensamentos
mais negativos, acalmando mesmo qualquer pessoa. E Jurema, além de ser muito
bonita, é sensata e doce.
O pensamento corria solto e o trânsito
estava ajudando a viagem. O carro fluia pelas ruas, sem grandes percalços, até que
um sinal demorado o reteve além da conta. No quarteirão seguinte, não era
esperado, mas outro sinal vermelho obrigou o alegre motorista a colocar os seus
devaneios de lado.
Aguardando ansiosamente a luz verde, olhou já
com um pouco de má vontade o mendigo seminú que se ajeitava para dormir,
arrumando seus papelões ao lado de uma banca. Concluiu com amargor que o mundo
tinha muitos defeitos. Uma criança chorando, puxando a mãe, que corria na faixa
de pedrestes, ajudou o afastar ainda mais de seus sonhos.
No instante que a luz verde do sinal
acendeu, um motoqueiro que se aproximava por detrás bateu de raspão no espelho
retrovisor do seu carro e, com um gesto de braço desrespeitoso, prosseguiu em
disparada, fazendo muito barulho. Foi a gota d’água! Jorge, irritado, acelerou ao máximo em perseguição à moto. Os
pensamentos não estavam mais coordenados na sua cabeça. Um sentimento de fúria
dominou sua mente. A corrida se dava com grande risco. Às vezes o carro chegava
próximo, mas por algum motivo, em seguida se afastava da motocicleta inimiga.
Ciente da raiva que causara ao motorista, o
motoqueiro se esquivava como podia, até que, em determinado momento, encontrou
um obstáculo, tentou desviar e derrapou, caindo no asfalto. Jorge não conseguiu
dominar o veículo que dirigia e, por infelicidade, bateu num hidrante causando
uma coluna de água gigantesca.
Vários transeuntes atônitos viram a cena e
um guarda logo apareceu. Cercaram o carro. Jorge encostou a cabeça no volante
desolado. Ainda deu tempo de ver na tela do celular, que estava tocando em cima
do banco do carona, um nome: Jurema.
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