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domingo, 12 de fevereiro de 2023

IRA

 

IRA

Da rua dava para ouvir os berros vindo do fundo da garagem subterrânea do prédio. A raiva de Jorge por não conseguir sair com com carro da vaga se traduzia naqueles gritos que chegavam até o porteiro noturno. Este no mesmo instante interfonou para o morador do 303. Já estava amargamente arrependido em concordar deixá-lo largar o seu SUV em qualquer lugar, pois havia chegado muito tarde. E que azar, logo na frente daquela vaga!

Demorou um certo tempo para que um jovem alto, sonolento e musculoso viesse atender as reclamações do possesso ‘madrugador’, vestido espalhafatosamente para ir à praia. O banhista, dada à circunstância de inferioridade, teve de admitir aquilo calado, engolindo o ódio gerado pela situação.   

Ao sair da garagem, Jorge verificou que o dia estava perfeito. A temperatura agradável e o sol.... Este sim fazia diferença em toda a confusão, pois batia nas árvores e prédios em um ângulo quase mágico, produzindo uma sensação ótima. Apesar de ainda agitado, ligou o rádio e ficou pensando que salvo as constantes queixas de saúde da mãe, que o desassossegavam, a vida dele ia bem naquele momento, sem grandes preocupações. Mesmo no trabalho, esquecendo aquele cliente impertinente chateando o tempo todo, as coisas caminhavam para melhor.

Agora, a praia o esperava e junto à ela..... Jurema, que já devia estar a caminho para lá.

Ah! O mar.... as suas cores que variam ao longo do dia, o barulhinho das ondas e o aroma do salitre fazem esvanecer os pensamentos mais negativos, acalmando mesmo qualquer pessoa. E Jurema, além de ser muito bonita, é sensata e doce.

O pensamento corria solto e o trânsito estava ajudando a viagem. O carro fluia pelas ruas, sem grandes percalços, até que um sinal demorado o reteve além da conta. No quarteirão seguinte, não era esperado, mas outro sinal vermelho obrigou o alegre motorista a colocar os seus devaneios de lado.

Aguardando ansiosamente a luz verde, olhou já com um pouco de má vontade o mendigo seminú que se ajeitava para dormir, arrumando seus papelões ao lado de uma banca. Concluiu com amargor que o mundo tinha muitos defeitos. Uma criança chorando, puxando a mãe, que corria na faixa de pedrestes, ajudou o afastar ainda mais de seus sonhos.

No instante que a luz verde do sinal acendeu, um motoqueiro que se aproximava por detrás bateu de raspão no espelho retrovisor do seu carro e, com um gesto de braço desrespeitoso, prosseguiu em disparada, fazendo muito barulho. Foi a gota d’água! Jorge, irritado, acelerou  ao máximo em perseguição à moto. Os pensamentos não estavam mais coordenados na sua cabeça. Um sentimento de fúria dominou sua mente. A corrida se dava com grande risco. Às vezes o carro chegava próximo, mas por algum motivo, em seguida se afastava da motocicleta inimiga.

Ciente da raiva que causara ao motorista, o motoqueiro se esquivava como podia, até que, em determinado momento, encontrou um obstáculo, tentou desviar e derrapou, caindo no asfalto. Jorge não conseguiu dominar o veículo que dirigia e, por infelicidade, bateu num hidrante causando uma coluna de água gigantesca.

Vários transeuntes atônitos viram a cena e um guarda logo apareceu. Cercaram o carro. Jorge encostou a cabeça no volante desolado. Ainda deu tempo de ver na tela do celular, que estava tocando em cima do banco do carona, um nome: Jurema.

 

 


 

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