O Condomínio
Parece um edifício como qualquer outro, encravado numa rua
movimentada de uma cidade caótica. Um bloco de cimento gigante, com sua
estrutura já antiga, necessitando de cuidados maiores do que lhe são destinados.
Mora muita gente no seu interior e pode-se dizer que ele aguenta os maus tratos
de seus habitantes até determinado limite, quando assim do nada, reclama feio e
de maneira que deixa a todos perplexos. Também pudera! O que acontece dentro e
fora de suas paredes a cada dia se supera, com crueldade ainda por cima. Ontem
mesmo, ali perto na esquina, ocorreu um assalto dantesco, que não deu nem para
saber direito como foi, pois outros menores na redondeza lhe roubaram a
cena.
Nas telas das televisões das pessoas, só repercutem
notícias ruins, principalmente do custo de vida e sobre a atual Guerra, com g
maiúsculo, que prossegue alhures, criando consequências funestas por aqui, imaginem!
Os elevadores, coitados, sobem e descem com pessoas, algumas desempregadas, que
não têm nada para fazer o dia inteiro, na maioria, mascaradas por causa dessa
desgraça de pandemia que não acaba!
João arca com as preocupações trazidas pela função de
dirigir o prédio como síndico, apagando os ‘incêndios’ diários que aparecem e sempre
sofrendo os comentários mesquinhos dos condôminos, por meio de um grupo de zap
criado sem seu consentimento pelo seu inimigo declarado Arlindo do 602. Por
sorte, este aí não conta com a simpatia de muitos. Perdeu brabo para ele, com
uma diferença significativa de votos na última eleição, o que só fez apressar
este seu ataque cibernético.
Casado há bastante tempo, João é dia após dia aconselhado
pela esposa a desistir dessa aventura de administrar o edifício. Mas o fato é,
que aposentado do serviço público, o que entra representa um reforço no mês e a
coisa não é tão desagradável assim. No geral, tem muita gente que ajuda. O
Silvério, por exemplo, é amigo e está constantemente dando sugestões
inteligentes, a Dona Maria está sempre disposta a fazer alguma coisa em favor
do grupo. O próprio Aldo, que deve três meses, não é má pessoa.
Feliz mesmo, pensa, era o seu antecessor. Pegou um período de ouro,
quase sem transtornos, saiu do prédio para um melhor, sem ter que exigir cotas
a mais, nem teve que aguentar esse chato do Arlindo. Mas, às vezes, é
divertido. A paquera do saradão do 903 em cima da gostosa da Cleideneide, que
não lhe dá bola; os dois velhinhos do 101, com suas reclamações sem noção; e o
argentino mal-educado do 504, vivendo às turras com seus cachorrinhos, que
desobedecem na maior suas ordens cretinas e por aí vai. Ele e o Raul, na
portaria, ficam um tempão observando e cumprimentando esse pessoal.
Os funcionários também colaboram, são gente boa, embora de
repente arranjam uma briga inexplicável, exigindo
uma certa habilidade para ser pacificada.
Em suma, João vai levando.
Num belo dia, inesperadamente, surge aquele problema! Na
realidade, ele não apareceu da noite para o dia. No próprio grupo, algumas
pessoas já vinham reclamando de uma família vivendo entre a calçada do prédio e
um terreno baldio da Prefeitura. Mas, que fazer? O bairro inteiro fora tomado
por uma população de rua que crescia visivelmente. João já tinha reclamado na
Prefeitura, na Polícia Militar, sem que seus apelos fossem ouvidos e nada fora
feito. Particularmente, ele via aquela situação com muita compaixão. Era uma
família composta por pai, mãe, uma filha de 5 anos e um menino, bebê, de alguns
meses. À primeira vista, perderam de todo suas posses e, como não deviam dispor
de outro jeito, viraram sem teto.
O pai, revoltado, de uma hora para outra, tornou-se
agressivo, xingando os passantes, piorando o quadro. Uma comissão de moradores,
incluindo alguns membros do conselho, imprensou João contra parede, cobrando
uma solução imediata.
Além de todos os podres, aquele ‘pepino’ tinha que ser
resolvido com a máxima pressa! Contudo, na ótica de João a situação era muito
grave, de ajuda humanitária mesmo, pois envolvia a vida daquelas pessoas. Ele
estava disposto até solicitar a aprovação de uma cota extra, a fim de sustentar
os mendigos por um certo tempo.
Assim, para tratar desse assunto, decidiu agendar uma
reunião de condôminos, em caráter extraordinário. Embora pouca gente
normalmente compareça a esse tipo de reunião, há pessoas que podem contribuir
de uma forma efetiva, conhecendo mais de perto a miséria que circunda
aquela família, pensou. Muitas sugestões podem aparecer.
No dia da reunião, preparou o “playground” de maneira
aconchegante com café e biscoito para todos, tendo o cuidado, antes, de
distribuir um panfleto esclarecedor, com conteúdo que promovia ‘subliminarmente’
a boa ação do condomínio para com a pobre família desamparada. Arrumou ainda
para que o Silvério secretariasse a reunião e reservou uns lugares especiais
para os mais velhos, caso viessem.
Na hora marcada, qual não foi a sua surpresa quando viu que
o prédio aderiu em massa à reunião. Além disso, depois que poucos conseguiram
se acomodar nas cadeiras disponíveis, uma revolta se originou no seio daquele
pessoal, que assumiu um posicionamento extremamente radical, contrário a
qualquer tipo de ajuda aos necessitados.
Alguns, como o saradão e seu objeto de azaração, D.
Cleideneide, eram favoráveis ao emprego de força, se necessário, para
expulsá-los dali. Outros, encabeçados pelos idosos sem-noção, exigiam
providências mais eficazes, como a contratação de ‘pessoas especializadas’ para
a resolução completa e exemplar de tal problema. “E que ninguém mais se
atreva....”
João viu-se perdido naquela enorme confusão, vendo suas
expectativas descendo ladeira abaixo. A reunião virou praticamente uma grande
feira descontrolada........ quando uma voz na multidão, gradualmente, fez com
que as outras se calassem.......
A bendita voz era do Arlindo que, acalmando as pessoas,
convenceu a todos de que o melhor seria prestar um apoio moral àquelas pessoas,
em uma primeira aproximação, mesmo que houvesse alguma despesa, pois via um
certo potencial nos pais, que poderia ser fomentado a curto prazo, para que se
aprumassem. Assim, uma quantia conseguiu ser aprovada para ajuda aos
desabrigados.
João jamais imaginou que este apoio partiria do seu maior
oponente!
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