Aniversário em outros tempos
- Joãozinho,
vem brincar com as outras crianças – ordenou a mãe.
- Já
vou mãe, espera um minuto, estou descansando, respondeu a criança gordinha com
face avermelhada.
A festa de aniversário de Carlinhos
acontecia animada. Os adultos colocavam a conversa em dia sobre a família, as
fofocas e até assuntos de serviço, puxados por algum conhecido que queria
aproveitar o momento.
A casa fora arrumada de véspera
com capricho. A sala ainda rescindia a cera de carnaúba, mas o que imperava no
ar era o aroma de glacê misturado ao de massa de bolo assado. Perfumes
femininos também se faziam presentes, no entanto o que marcava o ambiente era a
grande confusão de vozes desencontradas, gargalhadas e, por vezes, gritos
maternos de repreensão em razão de uma estrepolia cometida por um dos pequenos
e agitados convivas.
A mesa foi planejada com
antecedência. A peça principal era o bolo, decorado com o tema escolhido pelo
aniversariante. Possuía várias camadas de massa ligadas por uma espécie de
geleia de goiaba e confeitado com detalhes de um campo de futebol, esporte
preferido de Carlinhos. Pena é que esta iguaria teria que ser cortada dentro de
pouco tempo para degustação aqueles diabinhos em forma de gente. Ao redor do
bolo podia-se vislumbrar docinhos de toda espécie, amassados e enrolados nos
dias anteriores por todos os membros da família, convocados para esse esforço
conjunto.
A música para acompanhar a festa
também foi pensada, mas a vitrola, como sempre acontecia, na hora pifou. De
qualquer maneira, não haveria volume suficiente para suplantar o ruído tamanho
que os presentes produziam.
Ao contrário das outras crianças,
Joãozinho se posicionou estrategicamente em uma cadeira, de onde podia ter
acesso sigiloso às delícias expostas na mesa. Os moradores da casa estavam
todos ocupados em receber e servir os convidados que ainda chegavam e, assim,
em breves corridinhas, ele tinha acesso às guloseimas da mesa.
A recepção desses convidados era
tumultuada para Carlinhos, que se revezava entre estar brincando com os amigos
e correr, quando chamado pelos pais, para os cumprimentos. De uma certa forma,
ele gostava de receber os mimos dos que chegavam e lhe davam aquele abraço meio
desengonçado. Esses mimos eram depositados em cima da cama do aniversariante e
era alvo de curiosidade e cobiça por parte das crianças. Alguns brinquedos
entravam em uso na mesma hora.
- Joãozinho,
já descansou muito, vem brincar – insistia a mãe.
- Já
vou, mamãe– replicava mais uma vez pausada e preguiçosamente Joãozinho.
Os acidentes eventuais ocorriam,
como não podia deixar de suceder.
Crianças suadas correndo em todas as direções esbarravam em pessoas
servindo bandejas repletas de copos com guaraná e cerveja ou equilibradas com
pratinhos de sanduíches de queijo e presunto. E, assim, logo após estes
pequenos desastres, figuras provenientes da cozinha, fora do figurino vigente
no salão, apareciam munidas com vassouras e panos para limpar a sujeira e
varrer os cacos que sobravam das louças quebradas. Mas isto abria mais uma
oportunidade para Joãozinho, que ia enchendo a pança com brigadeiros,
paçoquinhas, olhos de sogra e tudo mais, furtivamente retirados da mesa.
Finalmente, chega a hora do
‘parabéns’! Todos se aglutinam ao redor da mesa. Uma foto pelo menos tinha que
registrar o momento! As crianças ocupavam o círculo mais próximo do bolo, num
jogo de empurra-empurra. O apagar das velinhas no escurinho da sala era o
clímax para elas, que demonstravam por meio de seus semblantes seus impulsos,
diga-se, mais selvagens. Joãozinho, pelo volume avantajado do corpo em relação
às outras crianças de sua idade, conseguiu postar-se ao lado do aniversariante,
para receber, sem perda de tempo, uma das primeiras fatias daquele bolo que lhe
parecia delicioso.
Após as cantorias e piadinhas de
praxe, as pessoas se espalham, já em outra disposição, mas a festa não perdia o
seu ritmo. Ainda havia muita comida e bebida para serem consumidos.
As horas vão passando, mas Joãozinho,
embora um pouco enfastiado, não podia abrir mão desse momento mágico e seguia
firme nas suas comilanças.
Às dez, vários convidados se
despedem sob os protestos das menininhas e menininhos já cansados, suados e em
desalinho completo. Poucos remanescentes acabam por se retirar. Os da casa não
querem nem olhar o cenário avassalador que resta da festa, indicando uma grande
trabalheira adicional naquele mesmo instante e muitos e muitos outros dias de
faxina para deixar tudo como antes.
No taxi de volta para casa,
Joãozinho sente os primeiros sinais na barriga, anunciando uma noite em claro,
sentado no trono.
- Ah, Joãozinho, você passou da
conta – reclama a mãe;
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