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quinta-feira, 14 de julho de 2022

CONTOS

A CIDADE E A FLORESTA


“O que aconteceu neste lugar e que emoções foram sentidas pelas pessoas que aqui viveram?”.
 


À noite, a cidade vista assim de cima tem uma aparência ingênua. Parece um pequeno brinquedo cheio de detalhes interessantes. Os ônibus passam levando gente de um ponto a outro. Notamos um brilho alegre em suas luzes. Ao contrário, a cidade pode ser triste, o que não nos interessa por enquanto. Sabemos que existirá sempre um lado obscuro das coisas, o enigma que cada um carrega consigo, o que pode não representar nada para quem está ao seu lado.

Pela manhã, a cidade é muito bonita! Mas quando as luzes se apagam, algumas partes de que não gostamos muito ficam mais expostas, entretanto isto não significa que seus mistérios tenham sumido de todo.

É empolgante vê-la um pouco mais de perto, para que seus detalhes se revelem.

Antônio acorda cansado, quando a luz do dia já entra há muito pelo seu quarto, com tal ângulo que torna uma das paredes diferente, com aspecto agressivo. Ele não sabe se foram as poucas horas mal dormidas que lhe impuseram essa impressão. Pensa um pouco até tomar conta da realidade e imagina Marina adormecida docemente a seu lado e só assim consegue força suficiente para ficar de pé e enfrentar o seu dia.

Em uma época passada, não muito longe dali, uma floresta se apresenta exuberante! Nela, Bravo Guerreiro persegue sua vítima. O movimento é veloz, prejudicando a mira, que às vezes parece perfeita e às vezes, não. Folhas são manchadas de sangue à passagem do animal, revelando a tensão do momento. O suor do índio escorre, os seus sentidos se aguçam. O bicho luta com bravura, volta-se e, já sem forças, cai inofensivo aos pés do seu perseguidor. A ferida se abre pela última vez.

A festa da chegada à aldeia passa como um sonho na cabeça de Bravo Guerreiro, que arrasta sua presa morta como um símbolo de vitória.

No meio da tarde, o roubo é visto através do vidro da janela do carro. O pequeno marginal, levado a cumprir o seu papel de bandido urbano, sai correndo com o que conseguiu nas mãos, rente às pessoas que passam assustadas em sentido contrário. É impossível parar no meio da rua, barrando o trânsito, que pressiona atrás. A decisão de Antônio de interferir na cena também não foi tomada. Seguindo pelo asfalto, mais adiante, vê os que andam pela calçada e ignoram a cena ocorrida há pouco. Sobra apenas uma ponta de amargura.

Entre o azul do céu e o verde da floresta, o medo que ronda a tribo. Os jovens sonhadores dançam e os velhos, mais experientes, se preocupam com a sombra do homem branco que se aproxima dia a dia, com suas armas de fogo e seus objetos mágicos.

Alheio a tudo, do alto de uma árvore, Bravo Guerreiro contempla Olhar Distante banhando-se no rio. A pele queimada e reluzente da índia faz crescer seu amor. Sonha um dia unir seu corpo ao dela.

Os tambores ressoam com aflição, fazendo com que toda aquela parte da floresta seja tomada por uma atmosfera diferente, que denuncia o esforço da tribo para afastar as estranhas imagens que estão cada vez mais próximas.

 De volta à tona após um mergulho rápido, Marina vê as coisas com objetividade feminina. Percebe o olhar dos homens, mas o seu pensamento se detém no futuro, com suas inúmeras possibilidades. O casamento, a família e, por último, o trabalho são cenários múltiplos do momento, ainda não muito definidos. A brisa da praia dilui, em seguida, todos os seus anseios. Tem perfeita consciência da sua presença marcante e de sua bela silhueta. Ela sente-se confusa na escolha de coisas mais duradoras, mas leva a vida com certa inteligência, aproveitando os amigos e as atrações que a cidade oferece. Os estudos já se foram há muito e o emprego não é encarado como permanente.

Ao abrir a janela, Antônio sente-se feliz, mas não sabe o porquê, imagina que deve ser uma dessas ocasiões em que tudo se une em harmonia, sem exageros. O ar está frio, aumentando a sensação de felicidade, segundo o seu gosto. Observa os cartazes na parede dos prédios vizinhos, que emolduram esse momento, aconselhando remédios, comidas, modos de vida etc.

Atrás das árvores grandes, envoltas em um ambiente escuro alguns momentos antes, se levanta o sol, como uma grande bola dourada, com seus raios quentes refletidos no rio, em um belo espetáculo. É difícil para Bravo Guerreiro entender por que esse mesmo rio de águas tão mansas, que lhe dá tantos prazeres, tenha levado embora um amigo seu. Onde ele estaria? Olha o céu, a água do rio e por último a floresta.

A floresta e a cidade se alternam em seus ritmos. Basta observá-las à noite. Na cidade, numa rua qualquer, fracas luzes permanecem acesas em uma linguagem codificada, que por vezes tenta-se desvendar. Poucas pessoas passam e agitação diminui. Já na floresta, toda natureza se comunica, podendo até assustar quem chega desavisado.

Tudo acontece em tempos diferentes.

Esticado no sofá, Antônio tenta vencer a indolência da tarde quando, de repente, sem nenhuma explicação, sente-se fora do corpo. Caminha sem encostar os pés no chão pela casa que não é tão grande assim. Agora é criança e relembra aqueles tempos de um passado que está longe, mas não muito. Vê-se apaixonado por uma bela índia que surgiu dos livros da escola, vivendo em um ambiente exótico de imenso esplendor. Nos seus sonhos de criança, ele era herói e perseguia vitórias para enfeitiçar a mulher que amava.

Carregada por uma mistura precária de subserviência e força, Olhar Distante anda levemente através da floresta, deixando uma espécie de trilha luminosa por onde passa. Seu olhar como de costume está voltado para um local bem diferente daquele. É um dia igual a todos aqueles em que já viveu, repetitivo. A mãe e os irmãos a esperam para continuar suas vidas.

A preocupação a caminho do trabalho é constante. Milhares de papéis a revolver em sua cabeça, prejudicando as ideias corriqueiras, que deveriam fluir naturalmente ou até se tornarem realidade. Arquivos e mesas enormes atrapalham a visão clara de Marina daquilo que quer. Um aborrecimento simples a retira da cena atual e não se pode determinar o momento que foi.

Antônio espera nervoso no altar. A igreja toda iluminada, com a porta fechada e coberta de flores, empresta um ar formal ao momento. No seu interior, todos sussurram inquietos à espera da noiva, deixando um ruído musical no ambiente. Os pais, os parentes, os amigos e até os desconhecidos provocam em Antônio pensamentos sobre fatos passados, completamente defasados da situação atual. O movimento das pessoas presentes não tem comando aparente.

É difícil perceber o sentimento que paira na floresta no mesmo instante da marcha acelerada de corpos ungidos de diversas cores circulando ao tempo, que cantam a guerra, evocando a coragem dos deuses e esgrimindo suas lanças no ar. Sabe-se lá que pensamentos e anseios estão nas mentes agitadas dos seus participantes.

Vistas assim de longe, a floresta e a cidade, quase não diferem uma da outra. Suas formas se confundem. Parecem não ter início nem fim.

A porta da igreja é aberta. O silêncio se faz entre os convidados. O tempo se prolonga como se fosse quase ao infinito. Antônio, do altar, parece divisar aquela índia dos tempos infantis.

 Marina entra e anda em direção a ele. 


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