“O que aconteceu neste lugar e que
emoções foram sentidas pelas pessoas que aqui viveram?”.
À noite, a cidade vista assim de
cima tem uma aparência ingênua. Parece um pequeno brinquedo cheio de detalhes
interessantes. Os ônibus passam levando gente de um ponto a outro. Notamos um
brilho alegre em suas luzes. Ao contrário, a cidade pode ser triste, o que não
nos interessa por enquanto. Sabemos que existirá sempre um lado obscuro das
coisas, o enigma que cada um carrega consigo, o que pode não representar nada
para quem está ao seu lado.
Pela manhã, a cidade é muito
bonita! Mas quando as luzes se apagam, algumas partes de que não gostamos muito
ficam mais expostas, entretanto isto não significa que seus mistérios tenham sumido
de todo.
É empolgante vê-la um pouco mais
de perto, para que seus detalhes se revelem.
Antônio acorda cansado, quando a
luz do dia já entra há muito pelo seu quarto, com tal ângulo que torna uma das
paredes diferente, com aspecto agressivo. Ele não sabe se foram as poucas horas
mal dormidas que lhe impuseram essa impressão. Pensa um pouco até tomar conta
da realidade e imagina Marina adormecida docemente a seu lado e só assim
consegue força suficiente para ficar de pé e enfrentar o seu dia.
Em uma época passada, não muito
longe dali, uma floresta se apresenta exuberante! Nela, Bravo Guerreiro
persegue sua vítima. O movimento é veloz, prejudicando a mira, que às vezes
parece perfeita e às vezes, não. Folhas são manchadas de sangue à passagem do
animal, revelando a tensão do momento. O suor do índio escorre, os seus
sentidos se aguçam. O bicho luta com bravura, volta-se e, já sem forças, cai
inofensivo aos pés do seu perseguidor. A ferida se abre pela última vez.
A festa da chegada à aldeia passa
como um sonho na cabeça de Bravo Guerreiro, que arrasta sua presa morta como um
símbolo de vitória.
No meio da tarde, o roubo é visto
através do vidro da janela do carro. O pequeno marginal, levado a cumprir o seu
papel de bandido urbano, sai correndo com o que conseguiu nas mãos, rente às
pessoas que passam assustadas em sentido contrário. É impossível parar no meio
da rua, barrando o trânsito, que pressiona atrás. A decisão de Antônio de
interferir na cena também não foi tomada. Seguindo pelo asfalto, mais adiante,
vê os que andam pela calçada e ignoram a cena ocorrida há pouco. Sobra apenas
uma ponta de amargura.
Entre o azul do céu e o verde da
floresta, o medo que ronda a tribo. Os jovens sonhadores dançam e os velhos,
mais experientes, se preocupam com a sombra do homem branco que se aproxima dia
a dia, com suas armas de fogo e seus objetos mágicos.
Alheio a tudo, do alto de uma árvore,
Bravo Guerreiro contempla Olhar Distante banhando-se no rio. A pele queimada e reluzente
da índia faz crescer seu amor. Sonha um dia unir seu corpo ao dela.
Os tambores ressoam com aflição,
fazendo com que toda aquela parte da floresta seja tomada por uma atmosfera diferente,
que denuncia o esforço da tribo para afastar as estranhas imagens que estão
cada vez mais próximas.
De volta à tona após um mergulho rápido,
Marina vê as coisas com objetividade feminina. Percebe o olhar dos homens, mas o
seu pensamento se detém no futuro, com suas inúmeras possibilidades. O
casamento, a família e, por último, o trabalho são cenários múltiplos do
momento, ainda não muito definidos. A brisa da praia dilui, em seguida, todos
os seus anseios. Tem perfeita consciência da sua presença marcante e de sua bela
silhueta. Ela sente-se confusa na escolha de coisas mais duradoras, mas leva a
vida com certa inteligência, aproveitando os amigos e as atrações que a cidade
oferece. Os estudos já se foram há muito e o emprego não é encarado como
permanente.
Ao abrir a janela, Antônio
sente-se feliz, mas não sabe o porquê, imagina que deve ser uma dessas ocasiões
em que tudo se une em harmonia, sem exageros. O ar está frio, aumentando a
sensação de felicidade, segundo o seu gosto. Observa os cartazes na parede dos
prédios vizinhos, que emolduram esse momento, aconselhando remédios, comidas,
modos de vida etc.
Atrás das árvores grandes, envoltas
em um ambiente escuro alguns momentos antes, se levanta o sol, como uma grande
bola dourada, com seus raios quentes refletidos no rio, em um belo espetáculo. É
difícil para Bravo Guerreiro entender por que esse mesmo rio de águas tão mansas,
que lhe dá tantos prazeres, tenha levado embora um amigo seu. Onde ele estaria?
Olha o céu, a água do rio e por último a floresta.
A floresta e a cidade se alternam
em seus ritmos. Basta observá-las à noite. Na cidade, numa rua qualquer, fracas
luzes permanecem acesas em uma linguagem codificada, que por vezes tenta-se
desvendar. Poucas pessoas passam e agitação diminui. Já na floresta, toda natureza
se comunica, podendo até assustar quem chega desavisado.
Tudo acontece em tempos
diferentes.
Esticado no sofá,
Antônio tenta vencer a indolência da tarde quando, de repente, sem nenhuma
explicação, sente-se fora do corpo. Caminha sem encostar os pés no chão pela
casa que não é tão grande assim. Agora é criança e relembra aqueles tempos de
um passado que está longe, mas não muito. Vê-se apaixonado por uma bela índia
que surgiu dos livros da escola, vivendo em um ambiente exótico de imenso esplendor.
Nos seus sonhos de criança, ele era herói e perseguia vitórias para enfeitiçar
a mulher que amava.
Carregada por uma mistura
precária de subserviência e força, Olhar Distante anda levemente através da
floresta, deixando uma espécie de trilha luminosa por onde passa. Seu olhar como
de costume está voltado para um local bem diferente daquele. É um dia igual a
todos aqueles em que já viveu, repetitivo. A mãe e os irmãos a esperam para
continuar suas vidas.
A preocupação a caminho do
trabalho é constante. Milhares de papéis a revolver em sua cabeça, prejudicando
as ideias corriqueiras, que deveriam fluir naturalmente ou até se tornarem
realidade. Arquivos e mesas enormes atrapalham a visão clara de Marina daquilo
que quer. Um aborrecimento simples a retira da cena atual e não se pode
determinar o momento que foi.
Antônio espera nervoso no altar. A
igreja toda iluminada, com a porta fechada e coberta de flores, empresta um ar
formal ao momento. No seu interior, todos sussurram inquietos à espera da noiva,
deixando um ruído musical no ambiente. Os pais, os parentes, os amigos e até os
desconhecidos provocam em Antônio pensamentos sobre fatos passados,
completamente defasados da situação atual. O movimento das pessoas presentes
não tem comando aparente.
É difícil perceber o sentimento
que paira na floresta no mesmo instante da marcha acelerada de corpos ungidos
de diversas cores circulando ao tempo, que cantam a guerra, evocando a coragem
dos deuses e esgrimindo suas lanças no ar. Sabe-se lá que pensamentos e anseios
estão nas mentes agitadas dos seus participantes.
Vistas assim de longe, a floresta
e a cidade, quase não diferem uma da outra. Suas formas se confundem. Parecem
não ter início nem fim.
A porta da igreja é aberta. O
silêncio se faz entre os convidados. O tempo se prolonga como se fosse quase ao
infinito. Antônio, do altar, parece divisar aquela índia dos tempos infantis.
Marina entra e anda em direção a ele.

Nenhum comentário:
Postar um comentário