ILUSÃO
Ana Neves
Sempre quis participar da “Festa literária Internacional de Paraty”.
Naquele ano cheguei à cidade ao entardecer. O céu estava com muitas nuvens e o sol, já querendo se pôr atrás dos morros, emprestava um quê de surreal ao brilho da maré que chegava até a Igreja de Santa Rita. As últimas escunas carregadas de turistas se aproximavam do cais. O mar calmo começara a adquirir a tonalidade azul escuro, com algumas marolas ainda tingidas de dourado pelos reflexos do sol poente. Na beira da praia a calma era total, contrastando com o agito das ruas internas e suas casinhas brancas de janelas coloniais pintadas em cores vivas. As pedras do calçamento, que no passado, tinham sido bem assentadas, para facilitar a passagem das carroças carregadas de ouro, agora, tendo sido recolocadas sem cuidado, obrigavam os transeuntes a seguir balançando o corpo de um lado para o outro em busca do equilíbrio. Vistos assim de longe, eles pareciam estar dançando ao som de uma música que eu não conseguia ouvir.
Fui andando sem pressa,
desfrutando do meu sonho de estudante de Letras. Passei por várias igrejas do
período colonial que conhecia apenas por fotos e leituras. A noite cai e eu não
percebo. Tudo fica ainda mais irreal quando as luzes dos lampiões antigos são
acesas. Sigo sem rumo certo. Aos poucos vou me afastando do burburinho dos
turistas. Ao virar uma esquina, um senhorzinho magro, alto, com óculos de aros
grossos e cabelos ralos, se vira, olha para mim, e fala:
- Deves estar perdida como
eu. Pus-me a caminhar e já não encontro o caminho do hotel.
Assustada, deixo cair a minha
bolsa.
Será, ele? Claro que não!
Quando ergui novamente a
cabeça restava-me apenas a visão de uma pequena capela muito simples, que eu
sabia ter sido construída em memória de um escravo liberto que se afogara no
rio numa Sexta-feira Santa.
A simplicidade da capela
trouxe, então, à minha lembrança o contraste com a opulência de uma catedral
portuguesa que visitara em Mafra, decorada com o ouro e os diamantes levados do
Brasil.
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