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terça-feira, 19 de maio de 2026

 

AS PALAVRAS VOAM

 

Todos trabalhavam com o mesmo objetivo. Aprontar o navio. Nessa próxima viagem os helicópteros da Marinha seriam transportados para realizar uma remodelagem completa na fábrica na Itália. Era sem dúvida motivante, mas a longa espera do sinal verde para o navio suspender provocava uma certa ansiedade na guarnição. Entretanto ninguém esmorecia! Eu era o Imediato do navio e mantinha um controle rigoroso de tudo que seria necessário para viagem. Uma tarefa difícil!

Todo o pessoal do navio sabia que o Capitão de Fragata Fonseca, amigo do Comandante, servindo no Gabinete do Ministro, anteciparia a data da viagem para ele, tão logo fosse decidida.

Um dia, estava eu em meu camarote, ao lado da Câmara do Comandante, quando fui chamado para falar com ele. Ao entrar, fui recebido com as seguintes palavras:

-                  Imediato, não comente com ninguém, segredo absoluto, o Fonseca me ligou neste minuto e o navio deve suspender daqui a duas semanas para viagem, temos pouco tempo. Manda chamar os Chefes de Departamento para uma reunião.

Sai de lá e falei com um marinheiro para avisar os Chefes de Departamento que haveria uma reunião na Câmara daqui a quinze minutos. Em seguida, regressei ao camarote para buscar as pastas de controle e voltei ao Comandante, a fim de alinhar com ele as ordens antes da reunião.

Logo, chegam os oficiais e o Chefe de Máquinas que, do nada, joga no ar a seguinte frase:

-                  Comandante, que legal, o Comandante Fonseca finalmente confirmou que a viagem foi autorizada!

O Comandante deu uma rápida e penetrante olhada em minha direção.

Os trabalhos da reunião foram iniciados. O meu pensamento subiu às alturas, com a situação embaraçosa criada pelo Chemaq.

Alguns segundos se passaram até que pedi para interromper a reunião.

-                  Comandante, desculpe interromper, mas preciso mencionar um assunto de grande importância.  

Expliquei o meu espanto a todos os presentes e perguntei ao Chemaq: “como você soube desta notícia?”.

-                  Eu soube pelo Sargento Martins no corredor da Praça D’Armas, ele passou por mim e disse “Chefe, a viagem saiu! O Comandante já recebeu a notícia”.

Intrigado, pedi para chamar o Sargento Martins.  

-                  Soube pelo Cabo Soares, lá na proa do navio, quando fui conversar com o Mestre – respondeu o sargento meio desconcertado.

Na sequência, o cabo foi chamado. “O marinheiro Maicon me falou no refeitório, disse ele”.  

Maicon explicou: - Inácio, o Ordenança do Comandante, me contou, perto da popa.  

A Câmara já estava lotada de gente – Imaginei cá comigo: como em um navio tão grande e em minutos, o assunto se espalha!

Nessa última descoberta, o próprio Comandante se precipitou e mandou chamar o Inácio.

O Inácio então: - O dispenseiro me disse que o Comandante Fonseca telefonou e falou que a viagem saiu.  

Foi a vez do marinheiro Paulo, dispenseiro do Comandante, se explicar.

 “Eu estava arrumando a Câmara, quando o Cabo-Auxiliar de serviço bateu na porta e falou:

- O Comandante Fonseca quer falar com o senhor, Comandante. Já transferimos a ligação para o seu aparelho.

O dispenseiro, que estava arrumando a Câmara, tinha ordens para sair, quando o Comandante recebesse qualquer ligação.

Sem intenção, ao sair, ainda deu tempo para ele escutar o Comandante dizer:

- Ó Fonseca, quer dizer que finalmente saiu a viagem!

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